Mensagem do Presidente
O GOVERNO NÃO AJUDA... Em apenas cinco meses, os brasileiros tiveram duas enormes demonstrações de como ainda é forte a cultura inflacionaria nos meios empresariais. Em janeiro, quando o câmbio foi liberado e o dólar disparou, foi irresistível a tentação remarcatória dos preços, tomando a cotação do dólar como parâmetro.
Agora, bastou o governo cobrar a nova alíquota da CPMF para os empresários dos mais variados setores - dos supermercados aos donos de postos de gasolina, passando pelos industriais da FIESP e as montadoras de automóveis - advertirem que vão elevar os preços entre 1% e 1,5%, por conta da alíquota de 0,38% sobre a movimentação financeira.
Preliminarmente, é estranho os empresários falarem em aumentos de 1% a 1,5%. Mesmo considerando que a incidência da CPMF em cascata encarece os produtos ao longo da cadeia de produção e comercialização, por que fixar números redondos? Para facilitar o acerto nas planilhas de computador? Mais grave, porém é querer repassar imediatamente para os preços o custo final que não incidiu sobre os estoques já formados.
Há muito que se sabia que a CPMF, suspensa em fevereiro, com alíquota de 0,20%, iria aumentar para 0,38%, para destinar esse 0,18% extra para cobrir os rombos da Previdência Social. Quem poderá provar se muitos empresários já não tinham contabilizado esse custo no valor do estoque e agora querem fazer dois repasses para o consumidor? Se o consumidor não tivesse resistido bravamente à inflação do dólar - deixando de comprar o que os vencimentos não podiam garantir - o país teria assistido à maior explosão inflacionaria da história. A queda posterior do dólar, nos meses de março, abril e maio, ajudou a quebrar as pressões inflacionarias. A prova disso é que as previsões do aumento anual dos preços ao consumidor recuaram dos 12% (logo após a mudança do câmbio) para 6% a 7% ao ano, atualmente.
Nunca é demais lembrar, porém, que, em fevereiro, já havia produtor rural querendo antecipar, no preço do quilo do frango entregue à vista, o eventual aumento de custo que ele teria ao final de 45 a 50 dias de engorda com o preço da ração encarecido pela nova cotação (em dólar) do farelo de soja. Hoje, o frango continua custando praticamente o mesmo preço de antes da desvalorização, apesar de o dólar ter saltado de R$ 1,21 para R$ 1,75.
O que aconteceu em janeiro e fevereiro deveria refrescar a memória dos empresários e do próprio governo - que está abusando dos reajustes na energia elétrica e nas tarifas de telecomunicações exatamente porque sabe que a recessão está impedindo reajustes dos preços em cadeia. Já era tempo de que percebessem que aumentos abusivos de preços podem ser um tiro no pé, diante da limitada capacidade do consumidor. Sem poder acompanhar a alta dos preços, a perda do poder de compra do consumidor implicará queda nas vendas.
José de Sousa e Silva é advogado, economista e Diretor Presidente da BGARJ
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