Mensagem do Presidente

Quem vive das “tetas” do governo, não pode representar o empresariado

A Firjan abriu suas portas na semana passada para um ato de desagravo ao Ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e à política econômica do Governo. Entre outras coisas, o presidente da entidade afirmou que não é o caso de se deixar abater por um trimestre. Foi o que de melhor encontrou para dizer sobre a queda de 1,2% do PIB registrada pelo IBGE. O argumento é de que o país precisa cerrar fileiras contra o grande dragão da maldade, a inflação.

O tempo passa, o tempo voa, e sempre haverá empresários ou entidades dispostos a defender incondicionalmente o governo, seja ele qual for. Atos similares foram protagonizados em defesa da política cambial de Gustavo Franco, por exemplo. Agora a defesa se traveste de luta contra a inflação. A literatura eternizou personagem que brandia sua velha espada contra fantasmas e dragões. Era Dom Quixote de La Mancha, conhecido como “cavaleiro da triste figura”. O brasileiro não precisa, definitivamente, brandir suas armas contra uma miragem.

Há pelo menos dez anos a inflação está sob controle. O que acontece desde então? O país não cresce. A economia quase não sai do lugar. Ou melhor, cavalga no ritmo de Dom Quixote e de seu cavalo cansado. Em toda a América Latina, apenas El Salvador vai crescer menos do que o Brasil em 2005. Os juros reais da Nação são os mais altos do mundo, duas vezes maior que os do segundo colocado. Há três anos o Brasil se pinta de Sancho Pança e finge acreditar no marketing oficial do cavaleiro Lula: caminha-se para algum lugar por aqui. Aqui se combate a fome. O mundo se curva ao Brasil. A ONU se curva ao Brasil. Bush se curva ao Brasil. O Brasil vai gerar 50 milhões de empregos. O Brasil vai crescer a ritmos estonteantes. As filas vão acabar. Só os pessimistas não vêem.

Caminha-se para algum lugar. Qual? Talvez para a Terra dos Sem Fome. Ou para a Nação dos Otimistas. Ou ainda para o País das Bolsas Famílias.

O Brasil virou o paraíso das palavras ao vento. O vento da retórica vazia faz rodar o moinho do Brasil de Lula e Palocci. A realidade importa pouco no mundo de Quixote e Pança. Importa pouco que a economia não caminhe para lugar nenhum. Ou que a infra-estrutura esteja paralisada. (Basta observar a queda na produção de cimento, indicador relevante do nível de atividade da infra-estrutura de um país). Quem está interessado em constatar que não se realizou nos últimos três anos uma só reforma importante na malfadada Carta Constitucional de 1988? Ou que o Brasil continua a ostentar uma carga tributária irracional?

Os empresários brasileiros são usurpados de 40% daquilo que produzem por um governo a um só tempo voraz e ineficaz. Arrecada-se muito e gasta-se mal. Um empresário que representa sua classe devia vir a público todos os dias cobrar a reforma tributária.

Um empresário comprometido com seus pares devia vir a público cobrar a reforma previdenciária – uma reforma verdadeira, não um arremedo como o que se fez anos atrás. A previdência social permanece como uma bomba-relógio com data marcada para explodir.

A reforma política é outra demanda emergencial, única forma de corrigir as distorções imorais do sistema político brasileiro. Esse sistema carcomido e corrompido de cima a baixo está na origem dos mensalões, dos caixas dois, dos tesoureiros corruptos e de toda a mixórdia que se verifica nas contas de tantos partidos políticos.

Tudo isso sem falar na reforma trabalhista. O arcabouço trabalhista brasileiro é um convite a informalidade e um inimigo do emprego. Uma entidade de classe responsável tem que chamar a atenção para o problema dia e noite.

Um empresário com “e” maiúsculo tem obrigação de cobrar do ministro da Fazenda, se tiver sorte de estar diante dele, explicações sobre uma taxa de juros real indecente , injustificável e intolerável. Tem obrigação de cobrar explicações sobre a política tributária que, como uma mão invisível, rouba 40% do que o empresário e o trabalhador produzem. É um alienado o empresário que não exige do ministro providencias imediatas para prover o país de uma infra-estrutura ao menos razoável, o que hoje não se verifica no Brasil. Não tem legitimidade o empresário que encontra desculpas para uma queda de 1,2% do PIB numa economia com a pujança da brasileira.

O empresário brasileiro é alguém que compete hoje com mãos amarradas. Quem sobrevive e prospera em um ambiente hostil à produção é que merece atos cotidianos de desagravo. A este respeito, fica a proposta para entidades de representação sérias: um ato de desagravo em homenagem aos empresários brasileiros, grandes, pequenos e médios, que ainda produzem e investem em um país com uma política econômica hostil, infra-estrutura sucateada, informalidade crescente, combate ineficaz à pirataria e dificuldades regulatórias. Estes sim merecem todas as homenagens.

Que deus, tenha pena de nós e deles também.

JOSE DE SOUSA E SILVA
Presidente da BGARJ