Mensagem do Presidente
O CHUCHU É O CULPADO DO AUMENTO DA PRESTAÇÃO DA CASA PRÓPRIA
Editorial de 04.09.00
Os vilões conhecidos - petróleo e geadas - empurraram os índices de preços para cima no mês de agosto. A reação da opinião pública foi imediata, revelando que os brasileiros e brasileiras ainda não conseguiram expurgar da memória o caráter insidioso dessa velha senhora, a inflação, que parece nunca desistir de voltar ao palco.
É preciso, neste caso, separar o que ainda é um fantasma no armário do que pode ser, de fato, uma ameaça para a estabilidade ainda juvenil de que gozam a economia brasileira e sua moeda, o real. Vamos aos fatos: em primeiro lugar, a baixa cultura brasileira ainda não permitiu que se trate a inflação, aqui, como nos países mais desenvolvidos.
Traumas do passado, lembranças ominosas da "inflação do chuchu", despreparo ou preconceitos generalizados impedem que se separe no Brasil o que é core inflation - ou seja, o núcleo da inflação - , dos fatores aleatórios que produzem índices exacerbados. Se fossem expurgados da inflação os fatores sazonais (geada, petróleo) o susto com os índices passados seriam menores. Mundialmente respeitado, o Federal Reserve System (banco central americano) trabalha sempre com índices expurgados.
Temos uma cultura para isso? Infelizmente, não. A baixa cultura brasileira, ajudada pelos preconceitos tradicionais, impede olhar para a inflação com a serenidade com que outros países e economistas o fazem. Há um certo motivo para isso, considerando-se também a tradição de lassidão com que a carestia foi tratada no passado, na medida em que os riscos indexavam a poupança e os pobres iludiam-se com a esperança de que a correção monetária salvasse seus salários.
Vale a pena, dadas as circunstâncias criadas por fatores sazonais, olhar o que está acontecendo lá fora. No dia 30 de agosto, por exemplo, o Banco Central Europeu resolveu aumentar as taxas de juros em 0,25%, mandando um claro sinal para a zona do Euro sobre os riscos de superaquecimento da economia.
O BC europeu deixou claro que vai atuar em todas as frentes, inclusive na liquidez bancária (disponibilidade de recursos) para evitar que, entre os países da União Européia, a inflação ameace ir além da média dos 2% ao ano. Isso mesmo: uma inflação acima de 2% ao ano provoca luzes amarelas em países onde não se admite meia inflação, da mesma forma que não se admite meia gravidez. Há, também, uma questão de rigidez de caráter implícita na atitude colegiada influenciada pelo Bundesbank - o BC germânico.
A divulgação das notas da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) deixa claro que o Banco Central brasileiro também acendeu as mesmas luzes. A Ata do Copom explica por que o BC resolveu manter a taxa de juros em 16,5% ao ano: "A folga prevista para a meta de 2000 desapareceu e a prevista para 2001 reduziu-se substancialmente".
Juros nominais de 16,5 % ao ano são consideravelmente altos, comparando-se com os europeus de 4,5% e os americanos de 6,5%. Descontando-se a inflação, contudo, chega-se à conclusão de que esse é um preço próximo do realista que o país deve pagar, enquanto não se alinha definitivamente com os níveis civilizados de inflação da zona do Euro ou do dólar americano.
É bom, portanto, que os faróis de alerta do BC pisquem mais forte a esta altura do ano, mostrando que o governo não irá sucumbir à demagogia antes das eleições deixando para pisar no freio depois de outubro, quando as águas tiverem passado e, talvez, levado de roldão algumas pontes.
A média das expectativas de mercado apurada por instituições respeitáveis aponta, neste momento, para uma inflação em torno de 8,9% e 9%, medida pelo IGP-DI e IGP-M, dois dos índices mais respeitados pelos analistas financeiros. Esses índices justificam luzes amarelas, mas não justificam as vermelhas.
Provavelmente a maior parte do ruído em torno da inflação decorre das feridas abertas na alma dos brasileiros e brasileiras, principalmente pelo medo de que a luz amarela não apague, trazendo de volta outra velha e ominosa filha bastarda dos tempos de economia militar: a correção monetária.
A correção tornou-se uma ponte permanente entre inflação e ilusão, principalmente a ilusão de que os salários poderiam vencer a corrida e a poupança estava garantida. O resumo dessa ópera os brasileiros conhecem. É espantoso, a propósito, como ainda existem saudosistas desses tempos e torcedores do quanto pior melhor.
José de Sousa e Silva é advogado, economista e Diretor Presidente da BGARJ
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