BGA - Bolsa de Gêneros Alimentícios do Rio de Janeiro

Mensagem do Presidente

DEPOIS O CULPADO É O EMPRESÁRIO

Editorial de 01.09.00

Um novo aumento de energia foi aprovado ontem. As tarifas telefônicas subiram 20% mais que a inflação nos últimos meses. A população vem externando decepção com a privatização. É hora de abrir uma discussão honesta sobre seus resultados, diz o presidente do BNDES, Francisco Gros, para quem o Governo até agora não conseguiu demonstrar que houve avanços.

Há quase seis meses o B NDES contratou uma pesquisa sobre a percepção popular da privatização. Conta-se nos dedos quem tinha visto, no Governo, seus resultados, que com boa vontade Gros qualifica de preocupantes. São ruins mesmo. Se a pesquisa fosse repetida hoje, talvez fossem piores. Houve expansão dos serviços, mas as tarifas passaram a castigar mais a classe média. São as maiores responsáveis por uma visita da inflação. As agências reguladoras - Anatel, Aneel e ANP - não se afirmaram como defensoras do consumidor. E nem fizeram por merecer tal confiança - parecem Ter feito opção preferencial pelas concessionárias.

Está bem, este é o lado ruim, sem dúvida há muito o que corrigir, mas houve avanços inegáveis. Faltou ao Governo uma política de comunicação para fazer a população enxergá-los. Batido o martelo dos leilões, parece Ter dado o assunto por resolvido. Daí a necessidade de se fazer agora um balanço honesto e franco.

- Hoje todos se esquecem da fila para se conseguir telefone, do que era a Telerj e de que não havia nem com que reclamar - diz o presidente do BNDES.

O número da pesquisa, se depender de Gros, continuarão bem guardados, mas ele confirma algumas decepções constatadas. A maior delas é com o fato de a dívida pública Ter crescido, justificando os juros altos, quando se falou tanto na necessidade de vender as estatais para amortizá-la.

- Os Críticos vivem repetindo isso e o Governo, de sua parte, não explicou o que teria ocorrido com a dívida se não tivessem ocorrido com as privatizações. Teria explodido, pondo em risco a estabilidade - diz Gros.

Mas o desencanto que mais conta é o que vem da pele e do bolso, com a qualidade dos serviços e as tarifas, o primeiro bem expresso na pesquisa do BNDES; segundo, em outras consultas já divulgadas sobre a satisfação do cidadão. Não houve um milagre da noite para o dia, como talvez se esperasse, diz Gros, mas houve um salto de qualidade que não pode ser negado. Cabe ao Governo demonstrá-lo cabe às agências vigiar o cumprimento das metas.

Tarifas ele evita discutir, não é de sua alçada, mas qualquer um sabe que elas não caíram, como se prometeu - muito pelo contrário. Usemos os dados de recente artigo do presidente da Federação e Centro do Comércio de São Paulo, Abram Szajman, que não é da oposição: de 1995 para cá as tarifas de energia subiram 200% acima da inflação de 14 %. Bem mais do que os 9% acima da inflação previstos nos contratos.

É oportuno mesmo um debate honesto e franco, como sugere Gros, até porque o processo não acabou. O tema vai para a sucessão de 2002. Tal debate pressupõe o desarmamento ideológico, tanto no Governo, que recusa a crítica e nega as falhas, como da oposição, ainda aferrada à denúncia da "entrega dos patrimônios na bacia das almas". E, principalmente, das agências reguladoras, que parecem representar um papel que não é o seu. Sintoma disso, o discurso que o presidente da Anatel, Renato Guerreiro, fez contra os críticos. Chamou-os de "advogados de trombadinhas, engenheiros do muro de Berlim, economistas do mercado de contrabando, correspondentes do "Pravda", administradores de cemitérios e políticos de meia-tigela". Convenhamos, ele não é pago para isso.

 

José de Sousa e Silva é advogado, economista e Diretor Presidente da BGARJ

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