Mensagem do Presidente
ACABANDO COM O PEQUENO
Editorial de 16.08.00
Quase seis anos depois, o Governo parece estar revendo um de seus dogmas. Aquele segundo o qual toda intervenção na soberania do mercado seria coisa do atraso e dos atrasados. Na Sexta-feira foram baixadas duas medidas provisórias contra cartéis, sinal de urgência, e um decreto criando um grupo de trabalho para recriar a agência de defesa do consumidor e da concorrência, principalmente para a defesa do pequeno comerciante.
O decreto para a criação da agência dá razão aos temores do ministro da Saúde, José Serra, de que a falta de instrumentos de acompanhamento eficazes possibilita a frustração do congelamento temporário de remédios. O sentimento de logro, nessa altura, seria equivalente ou maior que a satisfação demonstrada pela população com a medida, claramente expressa na última pesquisa Vox Populi/CNT.
Disse o ministro da justiça, José Gregori, que só agora o governo está tendo condições objetivas para identificar imperfeições do mercado, abusos de preços e casos de cartelização que precisam ser combatidos. Quase seis longos anos depois do fim da inflação, mas antes tarde que muito tarde, ele mesmo concorda. A alergia da equipe econômica a qualquer forma de intervenção no mercado parece estar passando, e certamente por razões políticas, não doutrinárias. Ninguém está com síndrome de Funaro, trata-se apenas do reconhecimento de que o olho do estado precisa estar mais atento, vigiar e punir se necessário. E fala-se disso agora como nunca tivesse sido analisado. Além de remédios e combustíveis, há outros produtos que devem ter seus preços em mira, como o cimento, o alumínio e uma lista de alimentos. O frango e o iogurte já foram símbolos do Real, mas hoje os preços de carnes e laticínios espantam a classe média.
As razões políticas vão ao encontro do gosto que a população brasileira parece Ter sempre nutrido por um certo grau de intervencionismo. Parece interpretá-lo como defesa de seus interesses diante do mercado por parte do Estado. Vão também ao encontro da sucessão. E sendo assim, mais cedo ou mais tarde alguém relacionará a mudança, que apenas se insinua, com a eventual candidatura de quem sempre combateu sozinho, no Governo, a entrega de tudo aos ditames do mercado, o ministro José Serra. Mas ele mesmo não está interessado agora em capitalizar uma eventual mudança de curso. Mudança que anima os aliados de uma aliança onde ele nunca foi exatamente querido. Aliança que parece ainda destinada a sustentar qualquer candidatura governista em 2002.
José de Sousa e Silva é advogado, economista e Diretor Presidente da BGARJ
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