BGA - Bolsa de Gêneros Alimentícios do Rio de Janeiro

Mensagem do Presidente

ESTAMOS SENDO ENGANADOS

Editorial de 25.07.00

Para quem está, desde vário planos econômicos, atrás do balcão, fica difícil entender as recentes notícias que dão conta de uma recuperação, ou mesmo crescimento, nas vendas do comércio. Isto porque não adianta comparar o ruim com o pior.

Se o desempenho das vendas num mês é comparado com o do mês anterior, este lado já pode estar refletindo, por exemplo, a pequena queda na taxa de juros, que tem permitido um maior consumo de bens duráveis, de maior valor unitário e, portanto, dependente de crédito para o seu consumo.

Assim, esse pequeno crescimento, localizado e pontual, existe, mas não representa uma recuperação sustentada das vendas, o que só poderia se dar com a superação do atual quadro de recessão e desemprego.

A ilusão estatística fica ainda mais evidente quando o crescimento das vendas é comparado com o do ano passado. Ora, foi no ano passado que o real se desvalorizou e as vendas despencaram. Em conseqüência, salvo a repetição de algum outro abalo semelhante, qualquer número deste ano tem a obrigação de ser melhor que os registrados em 1999.

Para a correta compreensão do que ocorre estruturalmente no comércio, é preciso Ter uma base de comparação mais ampla, ou consultar a série histórica, como dizem os técnicos.

Se compararmos o primeiro semestre do ano 2000 com igual período de 1995, o primeiro ano de plena vigência do Plano Real, vamos constatar que o faturamento real do comércio cresceu, nesse tempo, 5%. Só que, nesse mesmo período, o PIB do país aumentou 11%.

Prosseguindo nessa linha de análise, é interessante observar que, para um crescimento de 5% no faturamento real, houve, no mesmo período de 1995/2000, um crescimento muito maior, de 14%, nas vendas físicas.

Isto quer dizer que a margem de lucro do comerciante encolheu pela metade, sendo óbvio deduzir que se a outra metade não foi repassada aos preços, já que a inflação está contida, ela foi engolida pelo aumento dos custos, em especial das tarifas e dos impostos.

Outra mágica da estatística é aquela segundo a qual se eu como dois frangos, e você não come nenhum, para os estatísticos, nós comemos um cada um.

Coisa semelhante ocorre no comércio. Do total obtido pelo comércio geral de 5% nesses anos, 48% ficaram para o segmento de supermercados, que representa 40% de todo o comércio.

Isto significa que o crescimento dos demais segmentos como bens duráveis (eletrodomésticos e móveis e decoração), semiduráveis (vestuário, tecido e calçados), comércio automotivo ou material de construção ficou em torno de 0%. Ou seja, ficaram estagnados ou tiveram apenas um crescimento vegetativo.

Se levarmos em conta que nesse período aumentou o peso dos oligopólios no setor supermercadista, teremos o resultado final: quem comeu os frangos foram duas grandes redes de supermercados, enquanto o comércio representado pelas micro, pequenas e médias empresas, em qualquer dos segmentos, continua na rua da amargura, e vem aí uma quebradeira geral.

Em resumo, é preciso ver com muita reserva os números que falam às vezes de crescimento espantoso nas vendas do comércio, enquanto isto não está significando uma melhoria no padrão de vida dos consumidores e muito menos sobras nas caixas registradoras dos comerciantes.

A expansão efetiva nas vendas do comércio, em todos os segmentos, em torno de 25%, ocorreu entre 1994 e 1995.

Infelizmente isso não mais se repetiu e nem se repetirá, porque a mágica já perdeu o seu efeito, e as reformas, principalmente a tributária, são a única maneira para que os números espalhem crescimento real, e não apenas ilusões estatísticas.

O empresário brasileiro, continua igual a rabo de cavalo, crescendo para baixo.

 

José de Sousa e Silva é advogado, economista e Diretor Presidente da BGARJ

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