Mensagem do Presidente
ESCONDENDO A MISÉRIA
Editorial de 05/06/00
A irrupção de movimentos sociais, com os quais o Governo Federal e um governador como Mário Covas estão tendo dificuldades de lidar, já estavam no horizonte. As informações foram ignoradas ou subestimadas, ou faltou política preventiva mesmo.
Há dois anos, a lerdeza com que o Governo enfrentou o incêndio que devastou 30% do território de Roraima ajudou muito a desgastar o presidente no ano de sua reeleição. E voltou o Brasil a ser acusado de desmazelo ecológico lá fora. O aviso que os ambientalistas vêm dando ganhou ênfase em um seminário organizado pelo presidente da Comissão da Amazônia e Assuntos Regionais, Evandro Milhomem, para tratar do assunto fogo. Como outros palestrantes, Rainor Abensur coordenador das ONG's que atuam em Roraima, falou do perigo lembrando que a seca encontrará um combustível formidável no tapete de folhas secas, gravetos e esqueletos vegetais deixados pelo incêndio de 1998. No ano passado choveu, mas agora espera-se uma estiagem longa. Os agricultores preparam-se para queimar seus campos. É como o fogo começa.
Dos riscos no abastecimento de energia, já se falou à farta. Como o deputado Miro Teixeira que em Dezembro de 99 deixou registrado em jornais advertências baseadas em estudos técnicos que ele obteve na Coope/UFRJ, com dados mais pessimistas do que os apresentados agora pelo Governo - "Se não fizerem logo o terceiro linhão de Furnas, já em agosto haverá déficit de energia no Sudeste. O insano é insistirem em privatizar o setor numa situação destas, sem exigir novos investimentos"- Do ímpeto que tomariam os movimentos sociais, fala-se desde o início do ano. Mas até que houvesse a festa dos 500 anos, a greve dos caminhoneiros, as jornadas radicais do MST e a constante ameaça das comunidades pobres, como no caso Rio de Janeiro, tudo era visto e ouvido como praga nos adversários. A temporada pegou o Governo desprevenido, sem linha clara de ação. No primeiro momento ressurgiu a Lei de Segurança Nacional e até vimos o ministro Aloysio Nunes Ferreira falar com sotaque autoritário. Vindo dele, soou burlesco. No Congresso, o PSDB e mesmo os outros partidos governistas defendem o diálogo, mesmo que nada possa se dado. Já o ministro Malan almoçou com interlocutores petistas dos servidores em greve, e o secretário da Receita, Everardo Maciel, sentou-se com seus fiscais parados, sem os quais não arrecada. Em São Paulo, o governador Mário Covas teve outro lamentável confronto físico com os professores em greve, isto é um reflexo da falta de controle de Governo Federal, pois o controle da inflação, criou uma classe maior de miseráveis, aniquilando a classe média, que em grande parte era composta pelos funcionários públicos.
Estamos vendo a democracia brasileira no que tange aos direitos do cidadão, ir por água abaixo, pois um país que arrecada 31% do PIB em impostos e com certeza joga fora a metade dessa arrecadação, um país, que talvez seja o país número um em corrupção mundial, com escândalos assombrosos em que se leva anos para esclarecer aquilo que todo o país sabe, não pode andar bem, vejam o exemplo mais flagrante, os cidadãos nas grandes cidades principalmente, não têm mais o direito de ir e vir com o seu próprio veículo, pois tem uma cancela de pedágios em cada saída dos municípios além dos estaduais e federais. O cidadão que paga IPTU, não pode encostar o carro em frente ao seu prédio, tendo que pagar estacionamento.
O Governo nestes últimos seis anos, só deu privilégios e aumentos para combustíveis, energia elétrica, telecomunicações, criou impostos e taxas e benesses para os banqueiros. Enquanto isso, o preço da cesta básica e grande parte dos eletrodomésticos são inferiores a 1994, e o empresário tem a sua despesa dobrada e com isso milhões deles estão inadimplentes ou falidos.
Um alerta ao Governo, o povo está faminto, come-se menos hoje do que há dez anos atrás, a inquietação social começa pelo estômago.
O O Brasil é grande demais, para que o seu povo continue a sofrer. Solução existe. Basta pensarmos com a cabeça.
José de Sousa e Silva é advogado, economista e Diretor Presidente da BGARJ
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