Mensagem do Presidente
QUEM PAGARÁ A CONTA?
09/05/00
O sistema de transportes no Brasil passa por uma profunda mudança. Desde que as ferrovias e os terminais portuários começaram a ser privatizados, o transporte por trem ou navio está se recuperando progressivamente. A médio prazo, a tendência é de todas essas modalidades se integrarem mais, gerando cargas umas paras as outras.
No curto prazo, porém, esse aumento de concorrência no sistema de transporte tem provocado uma queda de tarifas, que vem afetando mais intensamente as pequenas empresas de fretes rodoviários e os caminhoneiros autônomos.
Houve uma época em que os transportadores conseguiam repassar para as tarifas de fretes qualquer aumento de custos.
Hoje isso não acontece. Quando há uma elevação nos preços dos combustíveis, dos serviços de manutenção dos veículos ou dos pedágios cobrados nas estradas sob concessão privada, os transportadores já não podem passá-los adiante, até porque os clientes também têm as suas pressões de custos e a disputa pelo mercado neutraliza o processo inflacionário.
Esse fenômeno tem levado a economia brasileira como um todo a buscar ganhos de produtividade e a ser mais eficiente. No entanto, alguns setores certamente têm mais dificuldades para enfrentar tal desafio.
Os pequenos transportadores rodoviários estão nessa condição, e como alternativa só vêem a possibilidade de o Governo conceder subsídios para o frete ou abrir mão de normas de segurança (peso da carga por eixo do veículo). A arma que usam para ter suas reivindicações atendidas é o locaute.
Trata-se de um quadro complicado, pois as soluções propostas não se adaptam às regras de mercado. Por outro lado, os benefícios que os transportadores terão com os investimentos que estão sendo feitos nas estradas de maior movimento de fato não serão imediatos. Até 202, as principais rodovias das regiões Sul e Sudeste estarão duplicadas e um anel rodoviário em torno de São Paulo facilitará a vida dos caminhoneiros. Mas até lá, a realidade será um mercado competitivo sem grandes chances de repasse de custos para as tarifas de fretes.
Diante de um problema tão complexo, a solução terá de vir do diálogo entre transportadores e autoridades. Sob a pressão do locaute, os caminhoneiros podem até conseguir concessões que o Governo certamente não terá condições de cumprir, e nesse caso, nada será resolvido.
Os caminhoneiros já chamam a atenção da opinião pública para suas dificuldades, mas a população se voltará contra a categoria se houver desabastecimento. Para as transportadoras, é hora de esfriar a cabeça e negociar, fugindo ao impasse.
José de Sousa e Silva é advogado, economista e Diretor Presidente da BGARJ
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