Mensagem do Presidente
FEITO NAS COXAS O Mercosul vem sendo atribulado por dificuldades decorrentes da desvalorização do real, que encareceu os produtos argentinos no Brasil e facilitou a entrada dos brasileiros na Argentina. Refém do superávit favorável ao nosso vizinho, criado menos pela capacidade competitiva argentina e mais pela proteção da sobrevalorização do real, o Mercosul balançou quando a verdade cambial trouxe à tona a realidade econômica. Mas será tudo?
Os fatos que percebemos como realidade raramente são independentes dos alicerces de natureza cultural e o nosso Mercosul, por racional que seja como instrumento de desenvolvimento regional, não foge a regra: ele está sujeito à influência, é bem verdade que decrescente, da herança cultural de rivalidades históricas. Essa influência é forte na Argentina, cujos interesses sócios econômicos ainda encontram respaldo em idiossincrasias anti-brasileiras que persistem em parte do povo, mas também existe no Brasil, onde alguns resíduos de velhos antagonismos emergem eventualmente em segmentos restritos atingidos pela concorrência argentina (e, disseminados no povo pela mídia sensacionalista sobrevivem no esporte, haja vista a paranóica guerra das medalhas nos recentes jogos Pan Americanos, quando era importante vencer a Argentina, mas não o era perder feio para a pequena Cuba...).
Entre os anos 1860/70, fim da consolidação nacional com seus problemas geo políticos envolvendo o Brasil, e a década de 1930 a Argentina progrediu em ritmo mais veloz do que o Brasil, tendo chegado a um bom patamar sócio-econômico na virada do século XIX para o XX. Os contenciosos fronteiriços com o Brasil foram resolvidos sem traumas, ao mesmo tempo em que a Argentina procurava liderar a resistência político americana ao intervencionismo americano no Caribe e América Central. Esse clima evoluiu quando, simultaneamente com o maior desenvolvimento brasileiro, Perón ressuscitou algumas facetas do ideário geopolítico do pré 1860, que fora substituído pelo sentimento de satisfação sócio-econômica do período de progresso. A era peronista e militar foi delicada para o Brasil: ela incluiu o insólito caso do aproveitamento hidroelétrico do Rio Paraná, que chegou a produzir preocupação militar (segunda metade dos anos 1970) e abriu espaço para alguns projetos argentinos de impacto regional, como o nuclear.
Alfonsín e Sarney deram partida num processo em que a cooperação deveria superar a rivalidade, mas como foi dito no início, a recente redução do superávit comercial pró-Argentina inseriu dificuldades no processo. Os sintomas de que a prevalência da cooperação não era segura estão presentes, por exemplo: na política cambial da paridade com o dólar, no automatismo de apoio argentino às posições americanas na intenção do presidente Menem de pôr a Argentina no núcleo do poder mundial tutelado pelos EUA e a Otan, e na predisposição de cooperar numa intervenção militar na Colômbia, inversa à política de resistência ao intervencionismo americano citada acima. Aparentemente, é prioridade atual o ingresso político da Argentina no "primeiro time" (de que esteve perto sócio-economicamente há 80/100 anos), útil inclusive para incrementar sua auto-estima em relação ao Brasil - o que decididamente não ajuda o Mercosul; essa quimera, inerente à inércia cultural, está razoavelmente disseminada e não será automaticamente sustada com o fim do decênio Menem.
Dada a vulnerabilidade produzida pela inércia cultural, talvez devamos admitir que ambicionamos um ritmo demasiado acelerado para a construção do Mercosul. Quem sabe, teria sido mais seguro um modelo de integrações e de tarifas externas comuns (TEC) temáticas menos sujeitas a controvérsias, cujo número cresceria com a concomitante diluição dos resíduos de rivalidades históricas, até a completa união econômica?
Agora só cabe resolver as dificuldades que estão ai, compreensíveis mas um tanto agravadas pelo peso morto do passado. É isso ou a rendição à Alca e à globalização - para alguns segmentos argentinos, hipótese preferível a parceria regional de forte presença brasileira!
José de Sousa e Silva é advogado, economista e Diretor Presidente da BGARJ
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