BGA - Bolsa de Gêneros Alimentícios do Rio de Janeiro

Mensagem do Presidente

A SOJA...

Os líderes da UDR no congresso, Ronaldo Caiado e Abelardo Lupino, foram focalizados pela mídia, pois lutavam pelo perdão da dívida de 1% dos agricultores com o Banco do Brasil. Representa metade do pendura de R$ 20 bilhões. A parte da dívida de 94% dos agricultores é menos de 20%. Volta e meia colhiam as opiniões de José Genoíno, líder do PT, vítima de cegueira política e solidário com os latifundiários.

Nenhum repórter, nenhuma câmara, tomou o rumo da Ala Teotônio Vilela, no Senado, onde fica o gabinete de Blairo Maggi, suplente em exercício do senador mato-grossense Jonas Pinheiro. É lá que poderiam colher as informações mais exatas sobre a situação dos grandes graneleiros.

Maggi, engenheiro agrônomo formado nos Estados Unidos, é o chefe de uma família de imigrantes italianos que veio para o Brasil há três gerações. O avô, que se instalou no interior do Paraná, comemorou o seu centenário no ano passado, com uma festa na qual dançou a noite inteira com as netas e bisnetas.

O Grupo Maggi é hoje o maior plantador e exportador de soja do país. Este ano está colhendo 120 mil toneladas nas fazendas das suas empresas e comercializando mais de um milhão de toneladas compradas de outros produtores. Construíram o novo porto de Humaitá, no início da hidrovia do Rio Madeira, e outro, em parceria com o Governo do Amazonas, em Itacoatiara, onde madeira e amazonas se encontram. Foi obra da família Maggi, a qual o mesmo supervisionava o embarque de 80 mil toneladas de soja num navio de 200 metros de comprimento - que atravessará o Canal do Panamá e atracará em Osaka, no Japão. A mão humana só vai tocar nessa soja quando uma dona de casa japonesa tirar a lata de óleo da prateleira de um supermercado.

Os principais setores agrícolas, como o de café, laranja ou açúcar e álcool não participaram das manifestações brasilienses.

O importante nessa manifestação é a situação das cooperativas e dos pequenos produtores. Tomaram dinheiro para financiar o custeio há duas ou três safras e aceitaram pagar os juros com uma correção da TR. Não há atividade agrícola que suporte um reajuste de 15% ou 20%. As margens de lucro na agricultura são menores. Como não conseguiram pagar os empréstimos tiveram o crédito cortado. Esse é que é o problema dos pequenos e médios plantadores de grãos. Hoje em dia uma família não consegue criar e educar os filhos se tiver somente um lote de 30 hectares, a não ser que viva perto dos mercados das grandes cidades e sua atividade seja muito especializada, como a dos que produzem hortifrutigranjeiros ou flores. Enquanto não eliminarem a TR dos empréstimos pequenos a agricultura familiar no Brasil será apenas de subsistência. Em Sapesal temos uma fazenda de 3.500 hectares que produz, soja, milho e feijão. Do outro lado da estrada há um assentamento da reforma agrária, com 6.500 hectares. O valor de sua produção é uma fração do que produzimos.

O preço da soja este ano caiu ao seu nível mais baixo dos últimos anos. O governo dos Estados Unidos, que subsidiava seus agricultores para não plantarem, mudou de política e passou a garantir um preço mínimo 20% acima do preço internacional. Resultado: plantaram. A safra de 78 milhões de toneladas que terão derrubou os preços. A soja do norte de Mato Grosso só continua ser rentável por causa do transporte mais barato pelo Rio Madeira. É também o preço do transporte que determinará a sobrevivência ou não da soja no sul do Piauí ou do Maranhão. A mudança da política agrícola americana é para acabar com a concorrência brasileira, o que merece denúncia na Organização Mundial do Comércio.

Só a exploração de apenas 30% das terras do Mato Grosso poderia produzir safras de 85 milhões de toneladas, o que é mais que o total de grãos que o Brasil produz hoje em dia. Basta termos crédito competitivo e não permitirmos que as multinacionais dominem o mercado de sementes.

A observação refere-se às sementes transgênicas, devemos ter cuidados com as plantas transgênicas, não por medo de alguma conseqüência biológica desconhecida, mas porque elas são patenteadas por muito poucas empresas multinacionais. Tem uma parceria com a Embrapa na busca de novos cultivares através da fundação Mato Grosso e acredito que nas áreas onde a Embrapa está presente os monopólios não se estabelecerão.

Se não continuarmos a desenvolver pesquisa própria, em dez anos a Monsanto é quem determinará quem terá comida e quem morrerá de fome no mundo.

 

José de Sousa e Silva é advogado, economista e Diretor Presidente da BGARJ

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