BGA - Bolsa de Gêneros Alimentícios do Rio de Janeiro

Mensagem do Presidente

DISCURSO REALIZADO NO EVENTO "ALMOÇO HOMENAGEM" EM 27.08.1999

Hoje estamos homenageando três empresas da cadeia de distribuição genuínamente brasileiras, o SUPERMERCADOS FLORESTA que possui a maior parte de suas lojas situadas no sul fluminense, o IMPÉRIO DA BANHA em Niterói e municípios vizinhos e o IRMÃOS BRANTES DA ROSA que fica situado em Friburgo zona serrana.

O Brasil está passando por uma fase muito difícil, e afetando nosso setor com sérias transformações, devido às aquisições de grupos estrangeiros, grupos estes, que hoje chegam a dominar 40% das vendas nacionais - muitos com empréstimos do BNDES - enquanto o governo de braços cruzados, continua vendo um dos setores de maior importância cair nas mãos das multinacionais.

O que vai acontecer? É muito simples, quando esses grupos dominarem 70%, o consumidor vai pagar o dobro do preço de hoje, e os médios e pequenos fornecedores tendem a desaparecer.

Mas, hoje também existe outro grave problema, que há muito tempo estava por explodir, que é o da agricultura.

A cadeia produtiva da economia rural, vai do preparo do solo à embalagem de plástico da margarina por exemplo, - a borracha sintética dos pneus dos tratores, - ao par de meias de algodão, - ao misturador da ração balanceada, - à mineração de adubos, - a corretoras das bolsas de mercadorias, - ao caminhoneiro da fronteira agrícola, - às feiras livres, - aos distribuidores de defensivos químicos, - ao embarque marítimo da soja, ao torrador de café, às pesquisas agronômicas, aos fabricantes de bombas de irrigação, - em resumo.

No conceito da cadeia produtiva, vulgo agronegócio (do inglês agrobusiness), os gêneros fruto da terra, devem movimentar este ano, nada menos de 385 bilhões de reais, ou seja, 40 % do PIB estimado para este ano a preços de julho em 970 bilhões.

Assistimos a invasão dos agricultores em Brasília, na qual tudo estava preparado para mais um calote, apoiado inclusive pela chamada oposição burra.

Pode ter havido, e parece que houve mesmo, nos anos da ditadura Getulista, exemplos de amigos do poder, que obtinham favores especiais do BB e não pagavam suas dívidas.

Mas foram poucos, e os maus exemplos não podem ser generalizados, e nem essas dívidas são imputáveis aos milhares de modestos fazendeiros brasileiros, então e naquela época, perdidos no sertão, os quais ignoravam a existência de quaisquer recursos ou financiamento para o setor. E perdidos porquanto estavam abandonados, sem implementos adequados, labutando de sol a sol, com enxadas e enxadões e nenhuma máquina agrícola.

O mundo mudou e a agropecuária também. Tanto assim que, nos países desenvolvidos, apenas de 2% a 5% da população vive no campo.

A esse contexto vêm-se adaptando os ruralistas brasileiros. Mas, infelizmente, encontram as maiores dificuldades na flexibilização e modernização da agricultura e pecuária.

A primeira dificuldade provém do próprio governo federal, que, ao longo dos anos, não concede ao setor a atenção devida.

O setor continua sem armazéns gerais, sem silos, sem ferrovias, sem asfalto em estradas vitais para o escoamento da produção, e, principalmente, sem política de garantia de preços para os produtos agropecuários.

Não é possível ao agricultor continuar vendendo, na sua porteira, uma saca de 60 kg de arroz pelo mesmo preço que o supermercado vende, na cidade, um quilo do mesmo arroz.

Na sua grande maioria, o pequeno e o médio empresários rurais vêem-se obrigados a tomar financiamento nos bancos. E aí, sim, rompe-se o trato, há descumprimento contratual, não dos ruralistas, mas do governo e/ou dos bancos, oficiais ou particulares.

Porque, ao contratar, deixa-se tudo escrito no papel; taxa de juros, tempo do financiamento, e valor das prestações. Só que, depois de acordadas as condições, inesperada e repentinamente, mudam os planos monetários e até as taxas de juros, e, ainda por cima os bancos, principalmente os oficiais, teimam em cobrar dos ruralistas valores já considerados inconstitucionais pelo STF, tais como BTNF, TRD, acrescidos de penalidades descabidas.

Que acontece então? Muito homem do campo, apesar de forte debaixo do sol, não agüenta as tortuosas pressões de luxuosos, mas obscuros e sombrios, gabinetes de burocratas governamentais, e cansados da romaria interministerial, acabam tombando, amargurados, arrasados e vencidos, e se vêem obrigados a vender, por preço vil, um pedaço da terra ou toda ela. E é claro, se a área já era pequena para o plantio objetivado, a metade da área já não produzirá o suficiente nem para a família comer.

Nos países desenvolvidos a agropecuária é substituída pelos Governos, como no caso da soja americana, que o governo americano garantiu aos agricultores mais 20% acima do preço mínimo, e com isso a safra recorde de 78 milhões de toneladas, tendo os preços caído a níveis baixíssimos, e sabemos que é notório que o investimento agropecuário é o que produz o mais baixo rendimento.

Paralelamente, há ainda outra dificuldade, esta causada pelos "matadores sabujos da terra", que como é sabido, são hoje arrebanhados entre os desempregados da cidade e provocam inquietação no meio rural, pois invadem propriedades, batem espancam e torturam os moradores, quando não matam.

Cada vez que uma propriedade é invadida, quem perde é o país, é a produção, é a coletividade. Porquanto, na invasão até que se obtenha medida judicial, há o prejuízo imediato no arrasamento, gradeação e roçação.

Enfim, ou o governo concede maior atenção ao setor, à política agrária, ou o Brasil continuará prejudicado na cadeia produtiva, pois a agropecuária é a base dessa cadeia. E sem produção não há emprego, sem emprego não há desenvolvimento e não há ainda como falar em Mercosul e em aumento de exportação para 100 milhões de toneladas de grãos.

Que Deus nos ajude, pois não temos mais tempo a perder.

 

José de Sousa e Silva é advogado, economista e Diretor Presidente da BGARJ

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